Santo Agostinho
Pedro, figura da Igreja em meio às ondas do mundo
Bispo de Hipona, Doutor da Igreja (354–430) · Sermão 76, Sobre as palavras do Evangelho de Mateus (cf. Sermo 76, De verbis Evangelii Matthaei, cap. 14)
"Pedro representa a Igreja: caminha sobre as ondas do século enquanto seus olhos permanecem fixos em Cristo; começa a afundar quando teme mais as tempestades do mundo do que confia n'Aquele que o chamou. Mas basta gritar 'Senhor, salva-me' para que a mesma mão que chama seja também a mão que sustenta."
Agostinho pregou repetidas vezes sobre este episódio ao longo de seu ministério episcopal em Hipona, e sua leitura tornou-se uma das mais influentes de toda a tradição latina: para ele, Pedro, ao caminhar sobre as águas, não representa apenas a si mesmo, mas figura toda a Igreja — chamada a atravessar, apoiada só na fé, as tempestades e perseguições do mundo até chegar a Cristo.
O detalhe central do sermão está no momento em que Pedro “vê o vento” e começa a temer. Agostinho nota que o vento não mudou entre o momento em que Pedro caminhava com segurança e o momento em que começou a afundar — o que mudou foi o objeto de sua atenção. É uma imagem, para ele, de toda alma cristã: enquanto o olhar da fé permanece fixo em Cristo, mesmo as maiores tribulações do mundo se tornam terreno firme; quando o medo das circunstâncias ocupa esse lugar, até o chão mais seguro começa a ceder. Mas o sermão termina em esperança, não em condenação: o grito “Senhor, salva-me” é, para Agostinho, a prova de que mesmo uma fé pequena e vacilante, contanto que ainda clame por Cristo, já é suficiente para que a mão do Senhor a segure.
Fontes: Catecismo da Igreja Católica §2732, sobre a pequenez da fé e a necessidade de perseverar na oração · Santo Agostinho, Sermones ad populum, Sermo 76, Patrologia Latina 38