Suscipe (Tomai, Senhor, e Recebei)
Santo Inácio de Loyola, Exercícios Espirituais, Contemplação para Alcançar o Amor
Suscipe, Domine, universam meam libertatem. Accipe memoriam, intellectum, atque voluntatem omnem. Quidquid habeo vel possideo, mihi largitus es; id tibi totum restituo, ac tuae prorsus voluntati trado gubernandum. Amorem tui solum cum gratia tua mihi dones, et dives sum satis, nec aliud quidquam ultra posco. Amen.
Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, minha memória, meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo. Vós me destes; a Vós, Senhor, o devolvo. Tudo é vosso, disponde de tudo segundo a vossa vontade. Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta. Amém.
Divisão em partes
"Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, minha memória, meu entendimento e toda a minha vontade"
Oferece a Deus não coisas externas, mas as próprias faculdades interiores da pessoa — o que há de mais íntimo e livre no ser humano.
"Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças" (Marcos 12:30).
Expressa a "indiferença" inaciana: disposição interior de não se apegar a nada além da vontade de Deus, colocando à disposição d'Ele até a própria liberdade.
"Vós me destes; a Vós, Senhor, o devolvo. Tudo é vosso"
Reconhece que nada do que a pessoa possui — nem mesmo suas próprias capacidades — é conquista independente, mas dom recebido, que agora é devolvido livremente.
"Que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o tivesses recebido?" (1 Coríntios 4:7).
Reflete a doutrina de que todo bem, natural ou sobrenatural, procede da graça gratuita de Deus (Catecismo §2007-2008), e nada pode ser reivindicado como mérito absolutamente próprio.
"Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta"
Conclusão da oração: pede-se apenas o amor e a graça de Deus, afirmando que isso, por si só, já é suficiente para a plena felicidade da pessoa.
"A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2 Coríntios 12:9).
Ecoa a experiência espiritual de que a graça divina, mesmo em meio à fraqueza ou à provação, é sempre suficiente para sustentar o crente.
Contexto histórico
Esta oração encerra os "Exercícios Espirituais" de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, escritos e revisados ao longo de várias décadas do século XVI a partir de sua própria experiência de conversão. Aparece como conclusão da "Contemplação para Alcançar o Amor", último exercício do retiro inaciano, e resume em poucas linhas toda a espiritualidade jesuíta de entrega radical e busca de Deus "em todas as coisas". Tornou-se, com o tempo, uma das orações de oferecimento mais citadas de toda a tradição espiritual católica, muito além dos círculos jesuítas.
Significado espiritual
É uma oração de entrega total: não apenas de bens materiais, mas das próprias faculdades interiores — liberdade, memória, entendimento e vontade —, reconhecendo que tudo o que a pessoa tem e é foi primeiro recebido como dom de Deus. A conclusão ("dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta") expressa a convicção central da espiritualidade inaciana: a união com Deus, e não a posse de bens, talentos ou méritos próprios, é o único bem que verdadeiramente satisfaz.