Nada Te Perturbe
Atribuição tradicional a Santa Teresa d'Ávila (1515-1582)
Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, Deus não muda, a paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.
Divisão em partes
"Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa"
Reconhece a impermanência de tudo o que é criado — sucessos, sofrimentos, posses — como ponto de partida para não colocar nelas a própria segurança.
Recorda Mateus 6:34 — "não vos aflijais pelo dia de amanhã" — e a certeza paulina de que "nem a morte, nem a vida... poderá separar-nos do amor de Deus" (Rm 8,38-39).
Ecoa a distinção clássica entre o que é eterno e o que é passageiro, central na espiritualidade teresiana da "morada interior" onde Deus habita além das agitações exteriores.
"Deus não muda, a paciência tudo alcança"
Contrapõe a instabilidade das coisas humanas à imutabilidade de Deus, e afirma que a virtude da paciência — sustentada por essa confiança — é capaz de atravessar qualquer dificuldade.
"Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre" (Hebreus 13:8); "na vossa paciência possuireis as vossas almas" (Lucas 21:19).
Reflete o atributo divino da imutabilidade (Deus é "sempre o mesmo", Hb 13,8) como fundamento da esperança cristã em meio às provações.
"Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta"
Conclusão e ápice do poema: a posse de Deus — não no sentido de controle, mas de comunhão — é o único bem que realmente sacia o coração humano.
"Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre" (Salmo 73:26); "Buscai primeiro o Reino de Deus... e todas essas coisas vos serão acrescentadas" (Mateus 6:33).
Expressa o que a tradição espiritual chama de "primazia de Deus": todo outro bem é bom na medida em que conduz a Ele, nunca o substitui.
Contexto histórico
Estes versos foram encontrados, após a morte de Santa Teresa de Jesus em 1582, escritos de próprio punho num pedaço de papel usado como marcador dentro do seu breviário — por isso é conhecida também como "o marcador de Santa Teresa". Não é uma oração litúrgica formal, mas um pequeno poema de confiança que resume, em poucas linhas, toda a espiritualidade teresiana: o desapego das coisas passageiras e o repouso total em Deus. O original foi escrito em castelhano ("Nada te turbe"); a forma portuguesa é a tradução consagrada pelo uso popular, sobretudo no Carmelo.
Significado espiritual
Santa Teresa, doutora da Igreja e reformadora do Carmelo, viveu décadas de intensa atividade — fundou dezessete mosteiros em meio a perseguições, doenças e viagens difíceis — e mesmo assim testemunhava uma paz interior que não dependia das circunstâncias. Estes versos ensinam que a verdadeira segurança não está em nada que passa (bens, saúde, aprovação), mas somente em Deus, que "não muda". A última linha, "só Deus basta", tornou-se um dos lemas mais citados da espiritualidade carmelita.