O que é o 'Filioque'? Por que católicos e ortodoxos divergem sobre a procissão do Espírito Santo?
'Filioque' é uma palavra latina ('e do Filho') acrescentada ao Credo Niceno-Constantinopolitano na tradição ocidental, afirmando que o Espírito Santo procede 'do Pai e do Filho'. As Igrejas Ortodoxas rejeitam esse acréscimo, tanto pela forma como foi inserido (sem um novo Concílio Ecumênico) quanto pelo conteúdo teológico, e essa disputa foi um dos fatores centrais do Cisma de 1054 entre Oriente e Ocidente.
Resposta completa
Esta é uma das questões teológicas mais antigas e mais delicadas na relação entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas — envolve tanto uma questão de conteúdo doutrinal quanto uma questão de autoridade e processo.
O que diz o Credo original. O Credo Niceno-Constantinopolitano, formulado nos Concílios de Niceia (325) e Constantinopla I (381), afirma que o Espírito Santo “procede do Pai” (ex Patre procedit). Foi esse o texto aprovado pelo Concílio Ecumênico e reconhecido por toda a Igreja indivisa dos primeiros séculos.
De onde veio o “Filioque”. Já no século VI, em concílios locais na Espanha visigótica — o mais citado é o III Concílio de Toledo (589) —, bispos ocidentais começaram a acrescentar ao Credo a palavra latina Filioque (“e do Filho”), afirmando que o Espírito Santo procede “do Pai e do Filho”. A intenção era sobretudo pastoral: reforçar, contra o arianismo então influente na região, que o Filho é plenamente divino e igual ao Pai, também na origem do Espírito. O uso se espalhou lentamente pelo Ocidente e só foi adotado oficialmente em Roma no início do século XI.
Por que o Oriente rejeita o acréscimo. As Igrejas Ortodoxas apontam dois problemas. Primeiro, um problema de processo: o texto de um Concílio Ecumênico foi alterado unilateralmente pelo Ocidente, sem a reunião de um novo Concílio que reunisse toda a Igreja para deliberar sobre a mudança. Segundo, um problema teológico: para a tradição oriental, afirmar que o Espírito procede “do Pai e do Filho” (como de um único princípio) arrisca obscurecer o Pai como única fonte (“monarquia do Pai”) de onde procedem tanto o Filho quanto o Espírito.
A posição católica hoje. O Catecismo mantém o ensinamento do Filioque (§246), mas o Vaticano, através do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos (1995), reconheceu publicamente que a fórmula grega original (“do Pai, através do Filho”) é uma expressão legítima e complementar da mesma fé, e que a inserção unilateral do termo no Credo, sem consenso de toda a Igreja, foi problemática do ponto de vista eclesial — ainda que o conteúdo teológico do Filioque, bem entendido, não seja considerado herético pela Igreja Católica.
Por que isso ainda importa: o Filioque continua sendo um dos principais pontos pendentes no diálogo ecumênico entre católicos e ortodoxos — um caso em que uma única palavra concentra, ao mesmo tempo, uma questão de doutrina trinitária e uma questão sobre quem tem autoridade para alterar as fórmulas comuns da fé de toda a Igreja.